PROSAS
Terça-feira, Abril 20, 2004
A CONFIANÇA
De Adriano Moreira, no Diário de Notícias de hoje:
«O unilateralismo, que tem como referência observante a segunda guerra do Iraque, está a desenvolver-se em clima de catástrofe para um valor insubstituível, que é o da sociedade de confiança.
O referido unilateralismo começou pelo efeito colateral das dúvidas sobre a credibilidade das alegações dos Governos que intervieram na coligação eventual, revestiu nova gravidade quando o eleitorado espanhol derrubou o Governo, na sequência da brutalidade terrorista que sofreu, e aprofunda-se com as audições levadas a efeito no Senado dos EUA.
Tudo numa circunstância em que diminuem as dúvidas sobre o facto de os ocidentais serem o objecto primeiro do terrorismo sem fronteiras, recordando que dificilmente se uniram no passado sem uma ameaça externa comum.
Os apelos a essa unidade são acompanhados pela invocação do dever de ser usada a favor do restabelecimento da paz, assente numa ordem mundial renovada.
Não é necessária muita análise para concordar em que, sem confiança entre os Estados, a unidade interna ocidental é frágil ou fracturada, que sem um Ocidente que tenha recuperado a definição da sociedade de confiança não é previsível a autoridade suficiente para arrastar adesões, e finalmente que, sem desencadear este movimento, não há regresso confiável à ONU, que tem de receber as contribuições indispensáveis para agir.
Talvez a crescente frequência com que as sedes do poder político, tantas vezes mais semântico do que real, apelam à sociedade civil para intervir com responsabilidade, ajude a regressar ao valor da sociedade de confiança.
Foi oportuna, mas sem que tenha sido aproveitada, a intervenção de Alain Peyrefitte no último quartel do século passado, quando apelou à preservação da sociedade de confiança.
Procurou inspiração num texto de 1753, de François de Forbonnais, que cita: «O grande objectivo de um Estado deve ser a confiança, e jamais a circulação das moedas é mais abundante do que quando nenhuma espécie de interesses leva os homens a esconder as suas propriedades ou a sua indústria», uma reflexão que certamente interessa os ministros das Finanças.
Mas agora o interesse é mais vasto, porque se trata da paz que se vai perdendo no teatro estratégico também globalizado, sem precedente histórico.
Um facto que, na vida presente dos Estados, desafiados por uma mundialização cujo tecido conjuntivo todos os dias aperta as malhas, mostra que a legitimidade da origem do poder é rapidamente ultrapassada pela legitimidade do exercício.
Um exercício diariamente avaliado pelos observatórios de opinião, pelos fazedores de opinião, pela intermediação dos meios de comunicação, e espera-se que sempre pelos Parlamentos.
É o exercício do poder que assegura ou faz perder a legitimidade, por esmagadora que tenha aparecido originariamente no escrutínio.
Mas é no escrutínio que em primeiro lugar, em regimes democráticos, se trata de preservar ou de restaurar a sociedade de confiança, nas suas duas vertentes.
Vertentes estas que são: a confiança na vida da sociedade contratualizada que é a sociedade civil, e a relação de confiança desta com o poder político.
A reacção do eleitorado espanhol foi nesse sentido.
Não se espera de nenhuma abstenção, ou voto em branco, qualquer contribuição para a recuperação da sociedade de confiança.
E sem esta não é previsível o regresso à paz».
Terça-feira, Abril 06, 2004
SOLIDARIEDADE ATLÂNTICA
De Adriano Moreira, no Diário de Notícias de hoje:
«A derrota do Partido Popular em Espanha, a decadência da autoridade do Governo francês, a mudança de liderança na Polónia, entre as referências mais recentes, sublinham a actualidade do conceito segundo o qual «o presente é complexo e o futuro é radicalmente incerto».
Uma moldura que se aplica com rigor aos ocidentais, os quais foram os construtores da ordem jurídica mundial hoje desafiada pelas áreas culturais que assumiram voz própria, e pelos poderes emergentes, estes estaduais ou erráticos.
Foi muito rápida a mudança de conjuntura, que viu substituir um inimigo assumido por uma inesperada multiplicação de ameaças atípicas que vão do crime organizado ao terrorismo global, que sofreu a desterritorialização da segurança, que perdeu apoio em modelos seculares de comportamento internacional porque se multiplicaram os Estados contestatários.
Aquilo que foi chamado «um arco de crises» teve assim um efeito preocupante nas fileiras aliadas, que perderam a segurança de conhecerem o eventual campo de batalha, porque os conflitos emergiram em distâncias não racionalizáveis pela experiência vivida, porque as leituras foram transferidas da perspectiva comum para as como que recuperadas perspectivas desencontradas dos interesses nacionais sustentadas por soberanias clássicas.
O inquietante desenrolar deste processo de resposta, sem ordem comum de batalha, parece finalmente encaminhar no sentido de restituir à serenidade lúcida a função de reconhecer a consistência do eixo da roda, que acompanha a roda mas não anda, e que exige o reordenamento das forças alinhadas pelo interesse comum que permanece.
As intervenções dos eleitorados, que usam a arma do voto para corrigirem os governos, não estão a pedir a deposição das armas porque sofreram demonstração suficiente das ameaças, estão a exigir legitimidade de exercício, sentido de responsabilidade, autenticidade de comportamento.
Unilateralismos, arrogâncias, manipulações da opinião pública, são fragilidades. E são fragilidades que por reflexividade tornam difícil a percepção do que é permanente, comum e irrenunciável.
Não se trata de os Estados Unidos da América julgarem suficiente a aliança de emergência com um restrito número de países, ou de gastarem energias a identificar uma velha Europa, mas sim de todos regressarem à clareza de entenderam que a mudança, de um inimigo visível para um inimigo em rede, não alterou o facto de que é um património comum de valores e de interesses ocidentais que exigem a permanência da solidariedade passada, o que não impede a urgência de reformular a ordem de batalha. Designadamente porque se a origem de duas guerras mundiais esteve no interior da Europa, agora trata-se de ameaças exteriores que se dirigem contra interesses comuns localizados em qualquer lugar do mundo.
A urgência da renovação do diálogo estratégico vem dessa reformulação da polemologia, e não sobretudo de incompatibilidades de interesses.
De facto é a evidência da necessidade de regressar a um compromisso sólido com o multilateralismo, à consulta permanente, à partilha de informações, que poderá e deverá restituir à NATO o vigor e clareza de propósitos indispensáveis para a defesa do interesse comum dos ocidentais, e para ter à disposição da ONU, que é inadiável reformar, um instrumento confiável ao serviço da restauração de uma ordem mundial toleravelmente pacífica».
Terça-feira, Março 30, 2004
SEM FRONTEIRAS A EUROPA E O TERRORISMO
De Teresa de Sousa, n'O Público de hoje:
«1. Aparentemente, tudo pareceu correr sobre rodas na cimeira europeia de Bruxelas da semana passada. Os Vinte Cinco mantiveram um debate amigável sobre os três principais pontos da agenda. Adoptaram sem problema as conclusões preparadas pela presidência irlandesa sobre a Constituição, o combate ao terrorismo e as reformas económicas e sociais. A retórica foi a adequada ao pós-11 de Março e ao sentimento de solidariedade desencadeado pelos atentados terroristas de Madrid.
A tranquilidade e a harmonia dos trabalhos e das decisões não disfarçam, no entanto, o facto da Europa continuar politicamente dividida e desarmada face ao novo terrorismo e estrategicamente impotente perante um mundo virado de pernas para o ar desde o fim da guerra fria e desde o 11 de Setembro. A cimeira não contribuiu para clarificar as zonas de indefinição e de divergência sobre o significado das novas ameaças à segurança mundial. Não se traduziu num esforço de maior consenso e maior eficácia em torno das várias "frentes" (políticas, diplomáticas, militares e de segurança) em que a Europa deveria agir a nível internacional. Não deu um passo para superar o maior de todos os factores de divisão europeia, a relação com a América, agora cristalizada em torno da questão do Iraque.
Nada em Bruxelas permitiu concluir que aquilo que os líderes europeus não aprenderam com o 11 de Setembro estão agora preparados para aprender com o 11 de Março.
2. Os atentados de Madrid poderiam ter sido, precisamente, uma oportunidade para reabrir um debate mais sério sobre a situação internacional e a necessidade de enfrentar o terrorismo global numa perspectiva global.
Em Bruxelas, os líderes europeus ficaram-se por muito menos que isso. Adoptaram (mais) um conjunto de medidas (algumas novas, outras já velhas) de natureza interna para reforçar os meios de coordenação policial. Criaram a nova figura do "Sr. Contraterrorismo" (alegadamente, para tentar coordenar os serviços de informações), cuja utilidade parece ser, por enquanto, sobretudo a de provar à opinião pública que estão a fazer alguma coisa. Anteciparam a "cláusula de solidariedade" já prevista no texto da futura Constituição europeia que delimita aos atentados terroristas o espírito do artº 5º do Tratado de Washington. É positivo mas é o mínimo que poderia ser feito perante as bombas de Madrid.
Em termos mediáticos, conseguiram certamente transmitir a imagem de que estão unidos e solidários no combate ao terrorismo.
Em termos políticos, é, porventura, mais importante o que estas novas medidas de última hora podem esconder do que aquilo que realmente significam.
O que elas escondem é, essencialmente, o facto da União não ter levado suficientemente a sério o 11 de Setembro. De não ter lido com a devida atenção a multiplicação de atentados que, depois do 11 de Setembro, causaram o terror do outro lado do mundo, na Indonésia, ou bem mais próximo das fronteiras da Europa, em Marrocos, na Turquia, na Tunísia ou na Arábia Saudita. De se ter embrenhado numa "guerra" interna sobre a sua relação transatlântica que a paralisou e a enfraqueceu e que a continua a paralisar e a enfraquecer, por mais grandiloquentes que sejam os discursos dos seus líderes sobre a necessidade de uma "Europa forte" - aliado influente ou rival influente da hiperpotência americana, pouco importa, porque, por enquanto, não consegue ser nem uma coisa nem outra.
A ilusão de que a mudança política em Madrid e o novo alinhamento da Espanha pelo eixo franco-alemão ajudará a resolver as divisões da Europa sobre a sua relação com a América, não passa disso mesmo, de uma ilusão. Alimentada em Paris por um Presidente e por uma cultura política que não conseguem deixar de ver a Europa como um instrumento ao serviço da "grandeza" da França.
O Iraque, com o seu rosário de problemas mas também de oportunidades, não desaparecerá graças à simples entrada em cena do futuro primeiro-ministro de Espanha. A Al Qaeda não mudará a sua natureza por causa disso. O conflito do Médio Oriente, sobre o qual a Europa tem apenas o poder de aprovar declarações, justas, é certo, bem intencionadas, sem dúvida, mas de escassa relevância prática, não se resolverá por obra e graça de uma nova relação de forças interna na União Europeia.
Finalmente, a prova irrefutável da incapacidade europeia de retirar do 11 de Setembro as conclusões necessárias, referiu-a há dias, prosaicamente, o director da Fundação para a Investigação Estratégica François Heisbourg ("Le Monde" de 27 de Março, num diálogo sobre o tema com o antigo ministro socialista dos Negócios Estrangeiros, Hubert Védrine) ao afirmar: "quando olhamos para a evolução orçamental e organizativa, verifica-se que muito pouca coisa mudou a nível europeu [desde o 11 de Setembro]". Como se o "hiperterrorismo" não fosse outra coisa, muito diferente do terrorismo clássico nem exigisse medidas de outra amplitude e de outra natureza.
3. Em suma, a Europa continua a não ser capaz de fazer mais do que olhar para o terrorismo com os olhos do passado (encarando-o essencialmente como um fenómeno de natureza circunscrita e incluindo-o na categoria de crime organizado) e com os instrumentos do passado. Repetindo o mesmo erro, dramático, que cometeu quando a crise dos Balcãs lhe entrou pela porta dentro: recusando-se a olhar para a nova realidade, acreditando que o "status quo" era, então, e continua a ser hoje uma opção viável.
Na última cimeira de Bruxelas, Jacques Chirac resolveu brindar os seus pares com uma longa prelecção sobre o terrorismo e a pobreza. Talvez seja esta a imagem mais perfeita da Europa que não queremos mas a que parecemos irremediavelmente condenados.
A menos que se tratasse de uma autocrítica (e sabe-se que esta não é uma vocação do Presidente francês), apetece perguntar: a qual pobreza se referia Chirac? A "pobreza" dos bairros periféricos de Paris, onde uma nova geração de filhos de imigrantes magrebinos alimenta a revolta contra a sua marginalidade social e cultural? A pobreza do mundo em vias de desenvolvimento, alimentada pela mais egoísta e perversa de todas as políticas europeias (a PAC, da qual a França se julga proprietária)? A pobreza que grassa nos países africanos de colonização francesa, britânica ou portuguesa, eternizada por governos ditatoriais e corruptos que as antigas potências coloniais gostam de tratar como parceiros privilegiados e recomendáveis?
Pouco importa. O que importa é que as palavras de Chirac sintetizam de uma forma tragicamente exemplar a dimensão da impotência e da inconsequência europeia face à nova ameaça do megaterrorismo global. Para além de todas as boas intenções reveladas pelos líderes europeus em Bruxelas, é esta a triste e inescapável realidade».
O OCASO DE CHIRAC
De José Manuel Fernandes, n'O Público de hoje:
«Aqui há uns bons anos, quando Jacques Chirac interrompeu inopinadamente o normal curso de uma legislatura para convocar eleições antecipadas, conseguindo com isso que o seu partido perdesse a maioria de que dispunha e entregando a chefia do Governo ao socialista Lionel Jospin, a revista liberal inglesa «The Economist», apesar de ser visceralmente contra o programa da «esquerda plural», escreveu que os males maiores da França não viriam do seu novo primeiro-ministro mas de estar condenada a viver ainda muitos anos com Chirac.
Tinha razão. Na história da V República Chirac ficará por certo como um dos presidentes mais desastrados e mais prejudiciais, não só para os interesses da França como para os interesses da construção europeia. A sua longa carreira política mostra que é um homem de imensa habilidade e nenhuns princípios. Pior: que encarna alguns dos piores hábitos do nepotismo à francesa, para não falar da mais crua corrupção. Olhando para o país e para o Mundo do alto do Palácio do Eliseu, como um "roi soleil» retardado e, sobretudo, enganado no tempo e no lugar, Chirac tem sido um Presidente errático nas políticas, incoerente no discurso, capaz da mais baixa política ou da arrogância mais brutal.
Domingo os eleitores franceses castigaram-no, e pesadamente. De nada lhe valeu ter sido reeleito há menos de dois anos com mais de 80 por cento do votos: domingo percebeu como grande parte desses votos não eram para si, antes contra Le Pen. De nada lhe valeu a cruzada soberanista que, há pouco mais de um ano, fez dele um dos principais responsáveis pela fractura transatlântica: a opinião pública profundamente anti-americana que então o aplaudia deixou-o agora a esbracejar à beira do precipício. De nada lhe valeu ter imposto à França uma lamentável lei a proibir os véus islâmicos nas escolas: a extrema-direita xenófoba subiu de novo e a esquerda laica humilhou-o. Por fim, de nada lhe valeu ir buscar à província um político que fazia alarde do seu provincianismo, o primeiro-ministro Raffarin: a França profunda, a França "d'en bas», foi também submersa pela onda rosa.
Para a dimensão da sua derrota - uma derrota pessoal, e não a derrota do seu primeiro-ministro - contribuíram muitos factores, e se alguns deles representam uma saudável reacção dos eleitores ao insuportável estilo de governar do "chiraquismo", se houve também muito voto de protesto (os conselhos regionais têm pouco poder e têm sido maioritariamente entregues aos partidos que estão na oposição no momento da votação), há contudo uma componente típica dos arcaísmos franceses na forma como os eleitores votaram: eles votaram também contra as reformas. Todas as reformas.
De facto, num país onde existe um consenso geral de que é necessário proceder a amplas reformas em sectores tão sensíveis como o da segurança social, à privatização de mega-empresas "nacionais" ou à abertura dos mercados ainda dominados pelos quase monopólios estatais à concorrência, esse consenso quebra-se no momento em que qualquer dessas reformas afecta cidadão a cidadão: nessa altura passa-se a ser contra. Por isso é bem provável que as reformas que lentamente se iniciavam passem do devagar-devagarinho ao parado. O que é preciso é não incomodar ninguém - algo que Chirac fará, se sentir que essa é a sua tábua de salvação. Está-lhe na massa do sangue».
Domingo, Março 28, 2004
A BALANÇA DA EUROPA E A DEMOCRACIA
De Guilherme d'Oliveira Martins, n'O Público de hoje:
«O 11 de Março de Madrid foi o 11 de Setembro europeu. A única resposta que se exige perante um tal massacre de inocentes passa pela democracia e por mais Europa política. "Se acreditamos que a Europa existe, devemos procurar algo mais do que o habitual comunicado analgésico" - disse, a quente, Timothy Garton Ash.
Depois de muitos erros, não podemos continuar indiferentes. Temos de ir às raízes da violência. A sua banalização não pode continuar. Devemos lançar, com determinação, as bases de uma União Europeia ciente das suas responsabilidades - não dando espaço ao terrorismo, qualquer que ele seja, de onde quer que ele venha. Precisamos, rapidamente e com passos seguros, de um tratado constitucional europeu que facilite a defesa dos interesses e valores comuns europeus. Só assim se reforçará estavelmente a frente democrática contra a violência e uma autêntica parceria euro-atlântica, em que todos se sintam iguais e responsáveis pelos destinos comuns. E os sinais dados pelos socialistas espanhóis em matéria europeia são positivos.
Parece haver vontade no sentido de se ultrapassar o impasse criado pela presidência italiana, situação que o governo irlandês tem tratado com realismo, serenidade e sabedoria. Poderemos corrigir a perda de votos da Espanha e da Polónia no Parlamento Europeu operada em Nice? Poderemos encontrar um novo critério para a dupla maioria, que poderá ser 55% na população e 55% no número de Estados? Poderemos tornar a Comissão mais pequena e eficaz, sem o sentimento de perda para muitos Estados-membros da União? Poderemos ser mais audaciosos no Conselho legislativo e na articulação efectiva entre Comissão e Conselho Europeu? Sem quaisquer optimismos despropositados, mas com sentido prático, do que se trata é de avançar com o tratado constitucional, para evitar o progresso do directório, por míngua de método comunitário...
A perspectiva diplomática e inter-governamental só favorece os países grandes. Marcar passo, insistir nas minorias de bloqueio, confundir igualdade entre os Estados e unanimidade como regra de decisão, privilegiar os egoísmos dos Estados, resistir ao governo económico da União e à coordenação de políticas - tudo isso apenas significará adiar um projecto de paz e de segurança para a Europa, impedir que o velho continente tenha voz activa na cena internacional e substituir a coesão social, económica e territorial pela fragmentação.
Dir-se-á que a história da Europa foi sempre feita de conflitos e de ambições insanáveis - e que haverá sempre uma tendência para o directório dos grandes. Mas os factos exigem o fim dessa fatalidade. Nos últimos dias, além da ameaça terrorista, presenciámos o recrudescimento da violência nos Balcãs e os desenvolvimentos absurdos da crise do Médio Oriente. Tivemos, de novo, a demonstração da necessidade de mais Europa política. Por exemplo, o grupo a que presido no Conselho da Europa no âmbito do património cultural viu-se confrontado com a irremediável destruição de monumentos históricos no Kosovo - e não esqueço a angústia da representante da Bósnia-Herzegovina a solicitar uma atitude comum contra a escalada da violência.
Temos de abandonar a atitude cínica dos que consideram ser inelutável a divisão europeia e o nosso atraso no velho continente, não havendo solução comum em nome da paz, da democracia e do desenvolvimento. A.J.P. Taylor afirmou que a história europeia foi, ao longo dos séculos, a ilustração do "estado de natureza" de Hobbes. Tudo dependeu dos jogos de guerra entre os Grandes Poderes do continente. Daí a necessidade de definir uma ordem e um equilíbrio - a que se chamou Balança da Europa.
Por uma questão de sobrevivência, os europeus precisam, cada vez mais, uns dos outros. Até porque já sabem quais os efeitos das divisões e das desinteligências. A democracia europeia precisa de um sistema de "checks and balances". Não podemos perder tempo. Sem uma União eficaz ficaremos desarmados perante a violência e o terrorismo. Os sinais inquietantes devem ser ultrapassados. Como afirmou Jacques Julliard, estamos perante duas soluções possíveis: ou um governo europeu com coordenação de políticas - desde a política externa e defesa à economia - ou um directório.
Uma União Social e Política tem de completar a União Económica e Monetária. Precisamos de lançar o debate europeu e de ser exigentes quanto à necessidade de mobilizar cidadãos e comunidades em torno dos interesses comuns e do que a União precisa... É a democracia europeia que está em causa, de modo a aproximar-nos de um governo europeu, capaz de gerir os interesses comuns e de aprofundar a partilha de responsabilidades. Só assim estaremos à altura de contrariar o perigo dos directórios e de uma Europa condicionada pela lógica inter-governamental.»
Sábado, Março 27, 2004
O ÚLTIMO RISO DO MOURO
De Fouad Ajami, n'O Público de hoje:
«Na lenda da Espanha mourisca, o último rei muçulmano de Granada, Boadbil, entregou as chaves da cidade em 2 de Janeiro de 1492, e numa das suas colinas parou para um último olhar ao seu domínio perdido. O local passaria assim a ser conhecido como El Ultimo Suspiro del Moro. Diz-se que a mãe de Boabdil o amaldiçoou e lhe disse para "chorar como uma mulher pela terra que não podia defender com um homem". Um poeta árabe da nossa época deu voz a um lamento histórico quando escreveu que ao percorrer as ruas de Granada meteu as mãos nos bolsos à procura das chaves das suas casas. Al Andaluz - a Andaluzia - tornar-se-ia uma profunda ferida, uma reminescência de domínios ganhos pelo Islão e depois perdidos. Não admira que cronistas muçulmanos tenham acrescentado "Que Allah a devolva ao Islão", ao contarem e recontarem o destino de Granada.
Balcãs àparte, o moderno Islão desenvolver-se-ia como uma religião afro-asiática. É verdade que os otomanos reivindicariam o Mediterrâneo Oriental. Mas o seu desafio foi neutralizado. A Turquia sucumbiu a uma pretensão europeia, mas nunca seria europeia. A vitória da Europa sobre o Islão pareceu definitiva. Mesmo os muçulmanos dos Balcãs tocados pela cultura otomana se tornaram uma comunidade marcada, deixada para trás pela retirada otomana da Europa como "algas em terra seca".
No entanto, a vingança de Boabdil chegou. Caiu sobre a Europa. A demografia - o envelhecimento da Europa por um lado e por outro uma imensidão de gente no Médio Oriente e no Norte de África - fez o trabalho de Boabdil. Desencadeada pelo crescimento económico dos anos 60, que criou a necessidade de trabalhadores estrangeiros, uma migração muçulmana para a Europa começou. Hoje, 15 milhões de muçulmanos residem na União Europeia.
Os primeiros migrantes estavam ansiosos de chegar a este novo mundo. Viveram com o mito inicial da migração de que a sua estada seria temporária. Mas, para a maioria esmagadora, Argel e Casablanca, Beirute e a Anatólia tornaram-se lugares irrecuperáveis. Com o tempo, haveria assaassínio e agitação no Líbano e no Irão, luta sectária na Síria, e uma longa era de carnificina na Argélia, mesmo em frente de Marselha. A destituição económica espalharia a miséria pelas terras de onde vieram. As taxas de nascimento tiveram o seu efeito demolidor: tornou-se impossível transmitir aos novos cultura e civilização e o velho mundo familiar. A migração tornou-se a única válvula de segurança.
Nos anos 80, terríveis guerras civis foram travadas em países árabes e islâmicos - com os privilégios de um lado, a cólera militante do outro. Os déspotas e a casta militar na Argélia, na Tunísia, na Síria e no Egipto ganharam essa luta. Os seus adversários derrotados fizeram-se ao caminho: a partir de Hamburgo e de Londres e de Copenhaga, a batalha começou. Para ajustar contas com os governantes dos seus países, o trabalho de subversão seria feito a partir da Europa. Fraternidades Muçulmanas alastraram por todo o continente. Nos novos ambientes havia subsídios de segurança social, dinheiro, protecções constitucionais e regras de asilo para ajudar a travar a velha luta.
"Todo o mundo árabe era perigoso para mim. Fui para Londres". As palavras são de um Islamista egípcio, Yasser Sirri. Em Londres, Sirri dirige um centro de observação islâmico e agita contra o despotismo de Hosni Mubarak. Mas Sirri, um homem de 40 anos, é procurado no seu país. Foi três vezes condenado à revelia: uma a 25 anos de trabalhos forçados por fazer entrar no Egipto terroristas armados; a segunda a 15 anos por ajudar dissidentes islâmicos; e a terceira à morte por conspirar para assassinar um primeiro-ministro. Sirri fugiu do Egipto para o Iémen. Mas teve ali problemas, pelo que foi para o Sudão, mas não foi melhor. Apareceu em Londres: aí, teria liberdades, e as protecções de uma cultura liberal. Não haveria extradição para ele, nenhum regresso à justiça sumária do Cairo.
Sirri não esteve a trabalhar no vazio. A geografia do Islão - e da imaginação islâmica - mudou nos últimos anos. A fé tornou-se portátil. os muçulmanos que deixaram os seus países trouxeram o Islão com eles. Os homens vieram para as terrás dos infiéis, mas uma nova geração de islamitas radicalizou ali a fé, no meio dos kafir (os infiéis).
As novas terras não mereciam grande lealdade e os radicais político-religiosos saborearam o espaço atribuído pela sociedade civil ocidental. Mas ressentiram-se da lógica da assimilação. Negaram às suas irmãs e filhas o direito de se misturarem com "estranhos". Pensar-se-ia que o pluralismo e tumulto deste mundo europeu aberto criaria uma versão da fé apropriada. Mas aconteceu precisamente o contrário. Nas terras da descrença, a fé agudizou-se para o combate. Sabemos que a vida em Hamburgo - e a espécie de Islão que Hamburgo tornou possível - foi decisiva na evolução de Mohamed Atta, que dirigiu os pilotos da morte em 11 de Setembro. Foi em Hamburgo que concebeu o ódio à modernidade, às mulheres e ao "McEgipto" de Mubarak. E foi em Hamburgo, também, que um jovem de uma família secular do Líbano se submeteu à transformação que o levaria de de uma escola preparatória católica de Beirute para os controlos de um avião no 11 de Setembro, e ao seu fim trágico perto dos campos de Shanksville, na Pensilvânia. Na sua deterioração económica, o mundo árabe está sem cidades onde os jovens muçulmanos de diferentes terras se possam encontrar. Uma função que Beirute em tempos desempenhou para uma elite mais velha. As cidades europeias apresentam agora essa espécie de oportunidade.
A televisão por satélite tem sido crucial para a construção de um novo radicalismo: os pregadores vão para o ar e chegam aos muçulmanos em toda a parte. A partir da segurança de cidades ocidentais, aconselham a beligerância. Proibem que se aperte a mão das examinadoras nas universidades. Avisam contra as saudações aos "infiéis" nos seus feriados religiosos, ou contra o serviço nos exércitos e polícias das novas terras. "Um muçulmano não tem nacionalidade excepto a sua fé", escreveu um padrinho intelectual do islamismo radical, o egípcio Sayyid Qutb, que foi executado por Nasser em 1966. Numa visita à Arábia Saudita em 2002, escutei um ouvinte telefonar de Estocolmo para um pregador muito popular: "Podemos aceitar as nacionalidades deles, mas pertencemos à nossa religião".
Os fiéis do islamismo radical não pedem desculpas. O que é o laicismo para os muçulmanos na França e os seus líderes militantes? É apenas o código de uma sociedade depravada que deseja impor aos filhos do Islão - em particular às suas mulheres jovens - as formas de uma cultura infiel. Que lealdade é que se deve à França? A cólera da juventude muçulmana da França nos subúrbios é vista como uma vingança sobre a França devido às suas guerras coloniais. A França colonizou a Argélia na década de 1830; os argelinos, juntamente com os tunisinos e marroquinos, devolvem agora o favor.
A França concede aos seus subúrbios muçulmanos tudo e nada. Deixa-os entregues a si próprios, e concede-lhes poder sobre as suas decisões de política externa quanto a assuntos islâmicos e do Médio Oriente; mas não lhes dá espaço quanto ao essencial da sua vida. Os problemas chegaram inclusive à plácida Bélgica. Em Antuérpia, Dyab Abu Jahjah, um jovem libanês, de apenas 32 anos, decidiu dar poder aos muçulmanos do país. A assimilação, diz, é uma "violação cultural". Veio para a Bélgica em 1991, e inventou uma história sobre perseguição; foi um "baixo truque político", diz, e está na natureza das coisas. A Constituição da Bélgica reconhece o holandês, o francês e o alemão como línguas oficiais. Abu Jahjah insiste em que o árabe seja acrescentado.
Os líderes da Europa conhecem os dilemas do continente. Em formas tanto intencionais com subliminares, a fuga para o anti-americanismo é uma tentativa de falsa associação aos povos do Islão. Dêem aos árabes - e às comunidades muçulmanas na Europa - anti-americanismo, dêem-lhes uma identificação com os palestinianos, e sereis poupados à sua cólera. Tocai os tambores da oposição à guerra da América no Iraque e a fúria do islamismo radical poupa-vos. Isto é visto como uma forma de evitar os problemas. Mas não tem saída. É verdade que a Espanha apoiou a campanha americana no Iraque, mas por outro lado a identificação da Espanha com os objectivos árabes tem uma longa história. De todos os maiores países da União Europeia, a Espanha tem sido o mais simpático com a causa palestiniana. Foi só em 1986 que a Espanha reconheceu Israel e estabeleceu com ele relações diplomáticas. Com a única excepção da Grécia, a Espanha demonstrou as mais profundas reservas em relação a Israel. Mas esta história não a protegeu dos bombistas do 11 de Março.
Seja qual for a arquitectura política que a Europa procura, terá de ser construída em proximidade com o Outro Mundo, frente ao Estreito de Gibraltar e numa fase de crise terminal. Não há perspectiva de os governantes de terras árabes oferecerem ao seu povo um contrato social decente, ou as oportunidades da liberdade. É um triste facto que os povos árabes já não fazem reivindicações aos seus chefes. Em vez disso, terroristas como os de Madrid agora procuram satisfação quase só em terra estrangeira.
Não se pode fazer agitação contra Mubarak no Cairo, mas pode-se fazê-lo a partir da segurança de Finsbury Park, em Londres. A ferocidade do debate no mundo árabe sobre a decisão da França em limitar o véu islâmico nas escolas públicas é uma medida desta raiva deslocada. A Espanha poderá atribuir a crueldade que a visitou à sua associação com a expedição da América ao Iraque. Mas a verdade é mais sombria. Jacques Chirac poderá acreditar que poupou à França o terror da Espanha denunciando a guerra no Iraque. Mas está enganado. Os islamistas não fazem distinções claras quanto às terras infiéis.
A Europa é palco de uma guerra entre a ordem e os seus inimigos, alimentada pela demografia: 40 por cento do mundo árabe tem menos de 14 anos. Os demógrafos dizem-nos que a taxa de fertilidade para renovação de populações é de 2,1 crianças por mulher. A Europa está muito abaixo disso; na Alemanha é 1,3, na Itália 1,2, na Espanha 1,1, na França 1,7. Os níveis de fertilidade no mundo islâmico são muito diferentes: 3,2 na Argélia, 3,4 no Egipto e Marrocos, 5,2 no Iraque e 6,1 na Arábia Saudita. Podem dizer aos vizinhos do outro lado do Estreito (e dentro das portas da Europa) que compartilhais a sua rejeição da Pax Americana. Mas a deusa da vingança está perto.
Há cinco séculos, os castelhanos tomaram Granada a Boabdil. Eram uma geração de pastores empurrados por uma lógica malthusiana, seguindo para Sul - e para o Novo Mundo, a partir de Sevilha - para responder às necessidades de Castela. Hoje há grande confusão nas terras islâmicas, e uma crise malthusiana. Se ao menos fosse verdade que só os amigos dos americanos são os visados na Europa. O Novo Mundo é um demónio deste islamismo, é verdade. Mas a velha fronteira entre a Europa e o Islão tem as suas próprias fúrias».
Quarta-feira, Março 24, 2004
O INIMIGO EM CASA
De Miguel Poiares Maduro, no Diário de Notícias de hoje:
Com o ataque terrorista de Madrid diz-se que a Europa descobriu o inimigo em casa. A ironia é que esta frase é verdadeira num sentido ainda mais profundo do que se pode imaginar. Este terrorismo traz consigo os fantasmas da Europa.
Em primeiro lugar, este terrorismo combate uma ideia europeia (a modernidade e a universalidade que lhe é implícita). Ao atacar a Europa, este terrorismo ataca a origem da própria modernidade e do ideal da razão que lhe está associado. O paradoxo é que este ataque à modernidade assenta numa ideia também europeia: a de que o ideal da razão e o seu carácter universal se opõe à identidade de um povo ou de uma comunidade assente em valores que não dependem da razão e a esta se devem impor.
Esta ideia que encontramos em diversas tradições filosóficas europeias (de Platão aos românticos) foi a base do nacional-socialismo e não é assim de estranhar que, como li recentemente, alguns radicais islâmicos tenham sido leitores apaixonados da literatura da época. Não pretendo fazer aqui um juízo de intenções sobre certas filosofias europeias e muito menos culpabilizar esses filósofos por certas apropriações das suas ideias. Pretendo apenas salientar a importância da oposição entre identidade e razão na compreensão do terrorismo actual e alertar para as consequências que daí decorrem e para similitudes com um combate que a Europa já travou.
O que explica este terrorismo indiscriminado e a nossa incapacidade de o tornar inteligível (e assim o poder melhor combater) é que ele se baseia numa identidade orgânica. Uma identidade que não resulta do exercício da razão mas que a ela se impõe como verdade revelada. Ao contrário, a identidade ocidental dominante é crítica (discute-se quanto é produto do contexto social e quanto é produto do exercício da razão mas é relativamente consensual que é uma identidade reflexiva, fruto de um discurso livre na procura da verdade).
É importante não confundir isto com uma crítica à religião. O terrorismo islâmico não tem nada que ver com a religião muçulmana mas sim com o aproveitamento identitário que dela é feito. É sim uma crítica a uma concepção da religião (qualquer que seja) em que o centro deixe de ser o homem e a sua liberdade e incerteza na procura da verdade divina (para aqueles que nela crêem) para passar ser o homem concebido como mero instrumento de uma verdade indiscutível que lhe é fornecida e não por ele descoberta.
É este tipo de identidade que traz em si a desumanização inerente ao terrorismo. Para os terroristas as vítimas não são seus semelhantes mas apenas obstáculos a afirmação pura do seu ideal. Este prevalece sobre tudo, incluindo a própria humanidade dos terroristas. Daí que o sacrifício pela causa seja também visto como natural (a pureza do ideal sobrepõe-se à humanidade das vítimas e terroristas).
À luz desta construção identitária as causas deste terrorismo são meramente instrumentais a uma concepção da vida que é independente dessas causas. É por isso também que estes terroristas não pretendem de nós algo que nos seja possível dar-lhes.
O que pretendem de nós é o nosso próprio desaparecimento ou a subjugação à sua verdade. Tudo o resto (a agenda política) é apenas um instrumento de mobilização popular de uma causa assente numa ideia de vida e na sua oposição à razão. Claro que seria importante resolver o conflito israelo-palestino ou diminuir as disparidades económicas nos países árabes. Mas não nos enganemos, tal não iria eliminar este terrorismo. Devemos prosseguir esses objectivos porque eles são importantes em si mesmos (e seria outra forma de conceder a vitória aos terroristas tratá-los como importantes apenas porque instrumentais à nossa segurança). Mas para além de difíceis, a sua obtenção não terminará com este terrorismo. Poderia apenas diminuir a sua base de apoio ou a tolerância popular com que é encarado nalguns países árabes.
O mesmo se diga quanto à captura de Ben Laden. Este terrorismo não assenta num homem ou numa organização mas sim numa ideia. Alguém definiu a Al-Qaeda como um sistema de franchising em que pequenos grupos autónomos agem independentemente coordenados apenas por uma mesma ideologia.
É este carácter identitário orgânico que torna tão difícil combater este terrorismo. Não se pode combater com a razão algo que assenta na oposição à própria ideia de discurso racional. O que determina este terrorismo não são objectivos políticos ou económicos mas sim a imposição de um identidade.
Uma identidade não negociável e que exclui qualquer outra identidade. Neste contexto, sabemos pouco quanto à forma como podemos combater este terrorismo.
Mas sabemos bem o que devemos proteger enquanto o combatemos: a nossa humanidade e a humanidade do outro.
Terça-feira, Março 23, 2004
O PERIGO ENVOLVENTE
De Adriano Moreira, no Diário de Notícias de hoje:
«Os oito milhões de pessoas que ocuparam as ruas e praças das cidades de Espanha, firmes na decisão de enfrentar o terrorismo, e severas no uso do voto para corrigir o comportamento do próprio Governo, eram, no conceito dos responsáveis pela agressão sofrida, os cruzados tão diabolizados pelos muçulmanos, como estes o foram pelos cristãos vítimas das invasões.
Não foram apenas as eleições espanholas que ficaram marcadas pelo devastador ataque, também as eleições na Rússia, igualmente realizadas no domingo, tiveram o condicionamento do ataque ao metro de Moscovo, embora a dimensão humana do desastre fosse menor.
Considerando por igual estas manifestações de um terrorismo sem fronteiras, que sacrifica os inocentes para alcançar os seus obscuros resultados estratégicos, isso não impede ter de reconhecer-se que a relação de proximidade é determinante do tecido de solidariedades. E por isso os meios de comunicação tornaram evidente, mesmo para os mais cépticos, que todos os europeus se assumiram nesse dia como espanhóis, para além das diferenças de interesses circunstanciais e de perspectivas não coincidentes.
Na teoria dos defeitos das virtudes, as animosidades históricas europeias sempre foram moderadas pela evidência de uma ameaça comum, e, desaparecido o muro de Berlim, esse elemento aglutinador emergiu brutal e sem vislumbre de complacência. É talvez útil insistir em que o mais urgente é aprender com os erros cometidos para reorganizar a defesa necessária, e que seria completamente despropositado ler o exercício punitivo do voto espanhol como o início de uma querela de culpas e de recriminações entre forças partidárias.
A crise de credibilidade dos Governos da coligação militar eventual foi instalada em mais de um país da área que o terrorismo definiu como inimiga, o perigo instalado é comum aos povos cujas forças militares participam na intervenção, e aos que são definidos como ocidentais pela cultura, e cruzados pelo revisionismo histórico. As recriminações serão tão prejudiciais à defesa comum, como o descaso apoiado na convicção de que apenas os envolvidos na intervenção no Iraque devem esperar as terríveis represálias. O facto do envolvimento espanhol na intervenção inspira preocupação da nossa sociedade civil no sentido de saber se Portugal também estará na mira da uma agressão do mesmo tipo.
Não é possível responder a uma questão desta natureza, mas parece inevitável assumir, e fazer o eleitorado entender, que todos os países ocidentais estão envolvidos pelo perigo agudo, que nenhum pode considerar-se isento, que dessa qualidade e não da intervenção, é que resulta a exposição. Por isso tem completa justificação e urgência que a Comissão Europeia se decida a coordenar a atitude conjunta dos europeus para enfrentar a nova ameaça, e que se desenvolva uma política de recuperação da confiança atlântica que também no passado esteve dependente da ameaça abrangente.
As deficiências a eliminar na articulação entre os serviços de informação de todo o espaço afectado, a necessidade comum de não consentir na violação do direito em favor de excessos securitários, a clara percepção de que estão em causa valores civilizacionais, também são referências que exigem o esforço doméstico de todos os Estados, sem omitir a ponderação de nenhuma debilidade».
